Entrevista sobre a Longevidade de Pessoas e Empresas do VP da FBM – Fundação Brasileira de Marketing Fábio Nogueira ao Conselheiro da ADVB – Associação de Dirigentes de Venda e Marketing do Brasil Nily Geller
Com o avanço da medicina e as condições de vida das pessoas, elas passaram a viver mais. Há 100 anos a expectativa de vida dos homens e mulheres no Brasil era de cerca de 35 anos. No Japão, há 100 anos, o prognóstico de vida para homens e mulheres era de cerca de 44 anos. Hoje a expectativa de vida média dos brasileiros é de 77 anos. E hoje no Japão espera-se que em média as pessoas vivam cerca de 85 anos.
Isso é bom para as pessoas e preocupante para os sistemas de saúde e previdência social, pois a proporção dos contribuintes jovens cai perante a persistência dos idosos em continuar vivendo.
Ainda assim, por que essa diferença entre os dois países é tão gritante? Será que o mercado aqui e no Japão tem se dedicado a atender especificamente a esse público que cresce dia a dia?
E quanto as empresas? Enquanto no Japão há cerca de 33 mil empresas centenárias, no Brasil, dependendo do critério e da fonte, não chega a um mil.
Qual é o motivo dessa diferença tão grande entre os dois países?
Seria a visão de longo prazo dos japoneses buscando a perenidade das empresas enquanto aqui boa parte delas se preocupa com o lucro imediato?
Para nos esclarecer sobre essas questões vamos entrevistar o Fabio Nogueira, mestre especialista em longevidade de pessoas e empresas.
Vamos a entrevista:
- Por que a expectativa de vida dos japoneses e de suas empresas é tão maior que a dos brasileiros?
Para a empresa se tornar centenária é fundamental a preparação das próximas duas gerações e não apenas da seguinte
Vamos separar a longevidade humana da longevidade corporativa. Começando pela longevidade humana, há muitos fatores que impactam a expectativa de vida, incluindo herança genética, alimentação, estilo de vida, saneamento, atendimento médico, propensão ao estresse, interação humana e muitos outros. É difícil comparar diretamente uma sociedade com a outra, mas o que se pode dizer, sem medo de errar, é que a expectativa de vida vem aumentando em todo o planeta desde o início do século 20, mesmo em países com baixo índice de desenvolvimento econômico e social. Tomemos o exemplo da Nigéria. A expectativa de vida em 1926 era similar à brasileira: 34 anos. Hoje é de 55 anos. O salto aparentemente foi menor. Entretanto, aumentou de 45 para os atuais 55 anos somente neste século. É uma melhora considerável.
Já a longevidade corporativa segue outro caminho. É claro que a sobrevivência empresarial é fortemente impactada por fatores externos como crises de energia, inovação disruptiva, recessões e instabilidade geopolítica. No entanto, há um fator cultural essencial: em determinadas sociedades, como na Alemanha, na Itália e no Japão, as pessoas criam negócios novos pensando em deixar um legado para os netos e bisnetos. A gestão dos negócios não foca apenas nos resultados de curto prazo ou na estratégia de 3 a 5 anos. Todos pensam em como fazer a empresa durar 50 ou 100 anos. Quando se pensa a longuíssimo prazo, muda a forma como se enxergam os ciclos de inovação, os investimentos em ativos fixos, a preparação das próximas 2 gerações (sim, 2 gerações ao mesmo tempo e não apenas a geração seguinte) e até mesmo a forma como se pensa a contribuição de cada um para a sociedade. Para que sua empresa dure 100 anos, é fundamental que o país prospere por 100 anos. E isso impacta seu posicionamento e responsabilidade como líder empresarial.
- Existe uma diferença entre a qualidade de vida dos 60+ daqui e do Japão?
A principal diferença é que no Japão a qualidade de vida do mais rico não difere muito do mais pobre, enquanto no Brasil a distância é significativa
Expectativa de vida é uma média estatística. Toda média oculta a distância entre os extremos. No Japão, a qualidade de vida do mais rico não é muito diferente daquela do mais pobre. No Brasil vamos do bilionário com acesso a todos os recursos até os que vivem em condições extremamente precárias. A expectativa de vida da classe A brasileira é de 83 anos, bem próxima da expectativa japonesa. De todo modo, pode-se indicar alguns fatores que contribuem positivamente para a nossa longevidade: o otimismo intrínseco do brasileiro; a cultura de forte convivência social e familiar, o perfil alimentar (há muita variedade de comida no Brasil, a um custo relativamente baixo, o que nos permite comer um pouco de tudo) e o fato de termos um sistema de saúde gratuito e universal. No Japão temos o equilíbrio entre o corpo e a mente, recursos médicos superiores, melhor sistema de saneamento, herança genética favorável e a grande preocupação da sociedade com as pessoas mais velhas.
- O mercado japonês e o brasileiro para atender os 60+ são o mesmo?
No Japão o idoso é muito valorizado, enquanto aqui não passa de um peso para a sociedade

Há um fator cultural que coloca Brasil e Japão em extremos opostos. Nos países orientais, as pessoas mais velhas são vistas como as mantenedoras dos valores, da sabedoria coletiva e do legado daquele povo. Portanto, são indivíduos muito respeitados e valorizados. No Brasil, os mais velhos são vistos como um peso para as famílias, a sociedade e as finanças públicas. Na ótica nacional, o velho é o sujeito que dá trabalho, que exige atenção, que consome remédio sem parar, que onera a previdência, que lota o SUS.
E que contribui pouco para a produção e a economia. Em consequência, o idoso é marginalizado na vida social, no mercado profissional e no de consumo. Se a sociedade não lhe dá valor, por que uma empresa te daria um emprego ou gastaria um dinheirão investindo em novos produtos e serviços para você?
- Os produtos desenvolvidos para essa faixa de idade são igualmente variados e adequados a esse público nos dois países?
Aqui não há quase nada visando o conforto do idoso e quando ocorre vira um case de marketing

Na Europa e nos EUA há uma crescente disponibilidade de produtos desenhados para o segmento maduro da sociedade. Na Itália, 34% da população tem mais de 60 anos. No Japão esse número é 38%. No Brasil é de 16%, com uma renda anual superior a R$ 1 trilhão. Se considerarmos um segmento etário um pouco mais amplo, os 50+, a renda anual disponível para consumo é de R$ 2,3 trilhões. No exterior existem calçados, roupas, condomínios, contas bancárias, apps, veículos e toda sorte de produtos desenhados pensando nas necessidades ergométricas e funcionais dos mais velhos. No Brasil não há praticamente nada. Quando um banco cria um app mais fácil de usar, vira case de marketing e ganha prêmio.
- O fato de o Brasil ter um nascimento muito maior de startups do que no Japão explica que lá as empresas tradicionais têm que viver mais se reinventando para suprir a necessidade de se atualizar?
No Brasil, a taxa de criação de novas empresas é cinco vezes a do Japão, mas a mortalidade das empresas é cinco vezes maior que no Japão
O Brasil é um país em desenvolvimento. Isso, por si só, estimula a criação de um número maior de empresas. Por outro lado, existe no Brasil uma figura chamada MEI, que equipara o indivíduo a uma empresa. No Brasil são criados 5 milhões de novos CNPJs por ano, sendo 96% MEIs. Então cerca de 200.000 novas empresas de fato são abertas em nosso país, enquanto no Japão são 40.000. Mas se você considerar que a taxa de mortalidade empresarial brasileira é de 4 a 5 vezes maior do que a japonesa, o balanço final não é tão diferente assim.
- A IA vai contribuir para o envelhecimento da população ou vai embotar o cérebro das pessoas e elas morrerão de tédio por não terem que pensar?
Eu aprendi na minha época de estudante de engenharia na Poli, nos anos 70, que a população mundial pode ser classificada em 3 grandes grupos: os indivíduos que pensam; os que não pensam; e os que fariam melhor se não pensassem.
Eu espero, sinceramente, que a inteligência artificial ajude a minimizar esse terceiro grupo
Fábio Nogueira é vice-presidente da Fundação Brasileira de Marketing e conselheiro da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil; sócio da Next50+, uma consultoria focada em longevidade corporativa; do Observatório da Longevidade, um centro de estudos sobre mercados emergentes; e da Aurora Ventures, uma aceleradora de startups criadas por mulheres. Cursou engenharia civil (Poli/USP), economia (FEA/USP), possui mestrado em Economia (FIPE/USP) e MBA (Hult International Business School – Boston/USA).
Nily Geller é engenheiro eletrônico formado pela PUC RJ com larga experiência no setor de telecomunicações, atualmente VP da FBM – Fundação Brasileira de Marketing, Conselheiro da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, Diretor da Área de Telecom da FIESP e Sócio-Diretor da Janar Engenharia.
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Difícil dizer algo sobre esse assunto tão triste para nós.
Mas como uma quase idosa (57). Ainda tenho esperança de um futuro melhor pra todos.
Bom seria se esse artigo chegasse a mais pessoas interessadas nesse assunto.
Obrigada.
Excelente entrevista, Nily!